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Dormir tarde e acordar tarde – a biologia explica esse
costume irritante dos adolescentes. O problema
é que eles andam dormindo muito menos do
que deveriam. |
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(Giuliana
Bergamo) |
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Peça
a um adolescente que vá dormir às 10 da noite.
Tente acordá-lo às 6 e meia da manhã.
Ou sugira que ele não durma tanto durante a tarde.
Em qualquer uma das três situações, será
uma tentativa infrutífera. O sono dos adolescentes
é motivo de preocupação e algum conflito
na maioria das famílias – e assunto recorrente
de trabalhos científicos. A edição de
junho da revista especializada Pediatrics, da Academia Americana
de Pediatria, traz uma compilação dos mais importantes
e recentes estudos sobre o tema. A principal conclusão
a que se chega depois que se lê o artigo é um
tanto perturbadora para os pais: dormir e acordar mais tarde
faz parte do processo natural de amadurecimento dos adolescentes.
É tão normal quanto as espinhas, o engrossamento
da voz típico dos meninos ou arredondamento das formas
das meninas, entre outras tantas transformações
puberais. O problema é que a rapaziada, em geral, vai
dormir ainda mais tarde do que seria o esperado e acorda também
muito mais cedo do que deveria. Culpa do ritmo e dos hábitos
da vida moderna: a televisão, a internet, o videogame,
o dia-a-dia repleto de atividades escolares e extracurriculares
e a vida noturna agitada. O ideal seria que os adolescentes
dormissem, em média, nove horas por noite. A maioria,
no máximo, não dorme mais do que seis. A falta
de sono pode levar a complicações que vão
do comprometimento do rendimento escolar ao desenvolvimento
de problemas de saúde. A adolescência é
uma das etapas da vida em que mais se está propenso
a distúrbios do sono.
A
revolução hormonal que detona a adolescência
tem um impacto na produção da melatonina, o
hormônio que regula a vontade de dormir. Secretado na
ausência de luz solar, ele aciona uma região
específica do cérebro, o núcleo supraquiasmático,
responsável entre outras funções pela
liberação de substâncias associadas ao
sono. Nos adolescentes, a produção diária
de melatonina sofre um atraso de até quatro horas em
relação à população em
geral. Apesar de não se conhecerem as causas desse
atraso, sabe-se que ele nada tem a ver com a vida moderna.
Desde 2003, a psicóloga Fernanda Torres, da Universidade
de São Paulo, acompanha os hábitos de sono dos
adolescentes de uma tribo indígena do litoral paulista.
Mesmo lá, onde não há nem sequer luz
elétrica, os jovens tendem dormir uma hora mais tarde
do que o resto do grupo. E, conseqüentemente, a acordar
também depois de todo mundo.
Quem
dorme menos do que deveria fica sonolento durante o dia, é
óbvio. No caso de um adolescente, como sabe qualquer
pai minimamente atento, isso torna mais difícil o cumprimento
das atividades cotidianas – que são cada vez
em maior número, sejam elas formais ou informais. Além
da escola, há o inglês, as aulas de reforço,
e por aí vai. Cumpridas essas obrigações,
é chegada a hora de ver televisão, navegar pela
internet, jogar videogame e ir para a academia – divertimentos
que tendem a ser noturnos. É à noite também
que os adolescentes costumam fazer sua principal refeição.
Isso contribui para que eles tenham dificuldade para dormir
na hora adequada. Forma-se, então, um círculo
vicioso – e exasperante para os pais, que têm
diante de si um jovem invariavelmente sonolento durante o
dia e aceso de madrugada. Um outro detalhe que compromete
o bom sono é que os adolescentes têm quase tudo
do que precisam no quarto – a televisão, o computador,
os aparelhos de DVD e de som. Alguns chegam a ter uma minigeladeira.
Isso descaracteriza o quarto como local de dormir e também
impede que os pais controlem os horários de seus filhos.
Aos
18 anos, a estudante Claudia Dahmer só consegue dormir
depois da meia-noite e meia. No dia seguinte, tem de estar
de pé às 5h45, para ir para o colégio
– obrigação que ela nem sempre consegue
cumprir. À noite, costuma acessar a internet e ver
TV ou ler. Seu irmão Mathias, de 15 anos, tem a mesma
rotina. “Teve um dia em que dormi numa aula e, quando
acordei, o professor que estava na classe já era outro
e estava lá fazia um tempão”, conta ele.
“Os adolescentes se comportam como se vivessem em outro
fuso horário”, diz o neurofisiologista Flávio
Alóe, do Hospital das Clínicas, em São
Paulo. Existe até uma síndrome do atraso do
sono, típica dos adolescentes. Ela é causada
por um atraso excessivo na secreção de melatonina,
impossível de ser regulado por mudanças de hábito.
Nos
fins de semana, quando poderia recuperar parte do sono perdido,
a maioria fica na rua até muito tarde. O momento mais
perigoso da semana, em que a falta de sono ameaça a
vida dos jovens, é a madrugada de sábado. “Nesse
momento, ao acúmulo da privação de sono
de toda a semana somam-se o cansaço da noitada e o
abuso de álcool”, diz a neurofisiologista Stela
Azevedo Tavares, do Hospital Albert Einstein, em São
Paulo. Há pouco mais de um ano, num desses sábados,
o estudante de direito Athur Otani Saito, de 19 anos, dormiu
ao volante e sofreu um grave acidente de carro. O susto serviu
para que ele procurasse ajuda. Hoje, Arthur está sob
tratamento para reeducação dos hábitos
de sono e já apresenta melhoras. Ao evitar comidas
pesadas perto da hora de ir para cama, antecipar o horário
da academia e tentar ir dormir mais cedo todos os dias, ele
consegue dormir até cinco horas por noite. Antes, sua
noite de sono era, no máximo, de quatro horas e meia.
Sim, meia hora faz uma enorme diferença.
Fonte: Revista Veja, 22
de junho, 2005 – págs. 88 / 90.
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